terça-feira, 16 de agosto de 2016

dia seis

Acordei tarde, estava exausto dos últimos dias em viagem.

O B. parece ser o anfitrião perfeito. Simpático e curioso. Conversamos sem limites, falamos sobre tudo. Sabia alguma coisas sobre Portugal. Expliquei outras. Houve empatia imediata.

"hoje não trabalho, é o meu dia livre. Ficamos juntos e amanhã fazes o que quiseres
"na boa!

Demos uma volta na cidade.
Fomos a um jardim e a um café com uma esplanada virada para laranjeiras.
Depois disse: "os meus amigos devem estar a fumar ópio. Deixa-me ligar-lhes
Sim, estão, Queres ir?
"sim, quero... quer dizer...vamos indo, decido pelo caminho...
Ainda hesitei, mas pensei: "when in Rome, do as the Romans

Estacionamos na rua, uma entrada manhosa. Subimos as escadas. Porta à esquerda.
Entramos pela sala. Chegamos a um quarto. Um cachimbo enorme emanava uma fumarada grossa e nem tive tempo para dizer nada: "Pega, é a tua vez. Bem-vindo ao Irão.

Sentados no chão, havia um braseiro, ópio, tabaco, melão fresco, água e latas de sumo. Não faltava nada.


À medida que se fuma mais, sabe melhor. Depois começa a dar comichão no nariz.
Pensa-se. Faz-se planos. Pensa-se outra vez. Estou ali com três estranhos.

De repente era noite e depois dia.
Dia sete

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

dia cinco

Acordei com o murmúrio do M. a rezar. É muito cedo, lá fora ainda está escuro. Acho que são quatro e meia, não sei bem.

É tempo de seguir, atulhar o carro e rezar mais uma vez.
As ruas estreitas ainda estão quentes do dia anterior, aparece uma loja madrugadora, compramos o pequeno-almoço. Mais à frente, já numa estrada que quer ser uma autoestrada, encostamos à berma.
(como não entendo que eles dizem, faço o que eles fazem)
Saímos do carro, abrem a mala, sacam a manta, esticam-na no chão e o pic-nic é mesmo ali.
Nem conseguia engolir direito pensar “E se vem um carro desgovernado?

O que vale é são 5:15 e não há muito transito… mas o que havia estava com pressa!

pequeno-almoço
A comida parece boa, mas a ideia de estar sentado no asfalto impede-me de saborear seja o que for. Sinto-me um sortudo: era mesmo isto que estava à procura! Estava a deixar-me ser levado, sem questionar e sem preconceitos - dentro do possível.

Ainda faltam muitos quilómetros.
Mas havia tempo, ninguém estava com pressa e estávamos a desfrutar: vamos lá a um gelado!

pausa do gelado
O sol ergueu-se a pique: torra a pele por cima e faz-nos caminhar sobre brasas - estamos atravessar o deserto para sul. Chegamos a uma área de serviço e em todas (as que vi) há uma mesquita, mas nesta também havia dois simpáticos camelos: o Pires descabelado e o amigo rabugento.

A família foi rezar mas desta vez o mais novo impôs a sua vontade: ficar comigo a afagar o pêlo, dar erva e levar o bicho a beber água. Depois, já à sombra, ele ensinou-me os números em Farsi.

o pires e o amigo
Para mim a viagem seguiu intermitente, entre o sono e a vigília. Horas mais tarde: Shiraz, finalmente!
Despedida sentida. Gostei mesmo deles. Uma experiência que dificilmente repetirá.
Um abraço longo, próximo e apertado, três beijos aos homens, um sorriso à mulheres.
Aos filhos, dei o presente do Porto que tinha trazido comigo - já não quis saber se podia dar à filha ou não, paciência: são as diferenças culturais.
Foi um prazer. Obrigado.

Horas depois encontrei-me com o B., fico em casa dele nos próximo dias.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

dia quatro

Shahed, 10:45

O nosso encontro já conta com quase uma hora de atraso, mas lá aparece com o filho e cumprimento-os enquanto caminhamos para o carro. Conheço a mulher, a filha e honrado e grato por tamanha confiança, estico num gesto caloroso. Deixo toda a gente em pânico: isto não era suposto, elas não são cumprimentáveis desta forma. Bem, são as diferenças culturais e problema resolvido.
“Rezo sempre antes das viagens, não te importas?
“Claro que não!


algures I


Não esperava: um professor de teologia, que mal fala inglês, um filho que pensa que conheço o CR7, uma mãe e uma filha simpáticas que (acho) que não podem falar comigo.
Estava a ser uma experiência para todos e sentia-se curiosidade: eu a deles e eles a minha e lá fomos perguntando coisas uns aos outros. Irmãos, irmãs, mãe, pai, trabalho, escola, religião, Portugal, Teerão, Porto Irão, fotografias para trás e para a frente. De repente: “Vais à igreja todas as semanas?
Uff e agora?
“Todas as semanas não. Mas sempre que há casamentos vou

Não tinha plano, mas eles tinham. Era uma viagem de família, umas quase férias: 5 dias em Shiraz.

Paragem em Abyaneh: é um povoado em Barzrud, a 320 quilómetros a sul de Teerão. Turístico o suficiente, mas o importante era com quem estava e agora é hora do almoço.
Preparam-me tudo! Comida caseira, fruta, chá, bolachas, até uma caneca tinha! Toalha no chão, sapatos de fora e picnic! 


M. e a família

Depois lá seguimos viagem até não sei muito bem onde e chegamos a outra cidade, já à noite.
Todos aflitos, com o carro às voltas ali no centro da cidade.
Pensei “não conseguem encontrar o hotel
Voltas e mais voltas e lá apareceu uma esguelha de lugar, diz ele “nós temos que ir rezar, não saias daqui. Depois vimos, montamos a tenda e dormimos aqui no jardim
Eia… desta é que eu não estava à espera
A ver se me safo digo: “mas não tenho saco-cama
“não te preocupes, nós temos um para ti
“ah, então está bem

Dei uma volta ali pelo centro. Não sei onde estou, mas gosto disto. Gosto destes lugares, gosto de estar perdido. As pessoas vêm e falam, perguntam, querem saber. Sinto-me seguro desde o primeiro dia que cheguei. E onde atravessar as ruas é uma experiencia quase morte. Mas é assim que se faz aqui e é assim que eu faço.
O transito é mais ou menos como se toda a gente tivesse que ir para aquele lugar ao mesmo tempo e já estivesse muito atrasada. Sempre.


algures II

Regressados da oração, diz o M. “Alá, ouviu a minha oração, arranjamos um anfitrião para passar a noite
A sério? Então ouviu as tuas e as minhas e disse-lhe “Good! :)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

dia três

Plano: Abyaneh, Esfahan, Shiraz, Yazd, Teerão e Porto.
Publiquei no “Iran CouchSurfing” que é um grupo social fechado, as cidades por onde ía passar.
E o plano durou menos de duas.
Pouco depois recebi uma mensagem:
“Amanhã vou com a minha família até Shiraz, devemos passar uma noite em Yasuj, podias vir connosco
“Será um prazer viajar com a tua família
“Amanhã às onze na estação de Shahed
Shiraz fica a 930 kilometros a sul


Disse-me o A. na noite anterior: "In Tehran, every night is friday night"
Hoje à noite, há outra festa 
As raparigas aperaltam-se para sair: tudo a rigor! Entretanto chegam mais pessoas, os mesmo de ontem e outros. Pensei que íamos a um bar, até que esqueci que aqui não há bares. Trouxeram as luzes, os altifalantes e de repente a festa começou.

É um ambiente intimo e uma cumplicidade enorme. Todos se conhecem.

Há uma rapariga que me pede:
“Diz uma coisa boa e uma coisa má sobre o Irão
Para a boa sabia o que dizer
“Estou a gostar das pessoas, mas a má ainda não sei
“A má é o hijab! Esta porcaria de lenço que temos na cabeça e queremos mostrar o cabelo
“Eu entendo, mas acho o hijab muito bonito, desculpa…
“Todos os homens dizem o mesmo” resignada


Para mim é difícil entender o que ela sente, só consigo imaginar.


dia dois

“Welcome to my country!” é a frase que mais ouço assim num tom de orgulho e surpresa, logo seguida de “Porque é que vieste para o Irão?

As pessoas com quem me tenho cruzado são afáveis e curiosas. Ando naturalmente perdido mas rapidamente aparece alguém a oferecer ajuda; ainda ontem um senhor com quem ia a conversar no banco de trás do táxi pagou a minha parte antes de sair. Foi bonito. Nas ruas quase que me levam aos sítios quando pergunto alguma coisa.

Teerão
Fiquei em casa da S. e da irmã, a norte de Teerão, próximo das montanhas.
Tive sorte, duas pessoas incríveis que também gostaram de mim.

“Logo há uma festa, queres vir?
“Sim claro
“A cerveja não é muito boa, é artesanal
“É cerveja!

As festas são ilegais e requerem a cumplicidade de todos. Principalmente dos vizinhos, que têm que ser avisados e concordar porque é uma barulheira ensurdecedora. Na verdade é crime, e com o álcool é ainda mais grave. Se vem a polícia, estamos tramados. Só pessoas da confiança do grupo é que estão convidadas.
E eu tinha que confiar neles, queria mesmo ver como é que era.


Terminou já de madrugada.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

dia zero

Faltam duas horas para o voo. Como sempre, fiz a mala à pressa e atafulho-a de medos. A minha mãe ajudou-me e também, como sempre, atira-me com a pergunta:
“Vais levar esta roupa toda engelhada? Espera aí que dou-te um jeitinho…
“Não é preciso mãe, a sério
… silêncio
“E vais levar esta roupa assim toda engelhada? Ó Zé Jorge, olha para isto!
“Pronto está bem…
À boleia, chego ao aeroporto, o check-in já está fechado:
“Fodasse, isto está a começar bem
Falo a primeira pessoa, passo para segunda, “Teve sorte, chegou a umas horas bonitas…
Check-in feito.
Procuro uma pessoa importante e não a encontro.
Passo a segurança, passo fronteira: já se embarca “pronto, relax…
Olho para o telefone:
“Liga-me quando chegares e assim ainda falamos 2 segundos contigo ainda em solo português
Ligo: “O quê, está aqui?! Oh, pensei que não vinhas!
Lembro-me da conversa ao almoço e na resposta à minha irmã: “Não, nunca perdi um voo
E penso: “E também não vai ser hoje!
Digo ao telefone: “dá-me 20 segundos, vou tentar mas não prometo

E se tentei…

Desato a correr, com mochila aos saltos atrás de mim, chego à fronteira, convenço o polícia que tinha acabado de me deixar passar que afinal preciso de sair mas já volto. Solo português, corro ainda mais depressa, e a mochila dos medos segue-me às costas (e que pesados que eles são!). Chego à segurança, explico, o primeiro não me deixa passar, mas já vejo a pessoa importante ao fundo, com novos argumentos tento com o segundo – sucesso - e diz: “eu não lhe disse nada mas tente ali com a alfandega, pode ser que o deixem”. A arfar, salto para o posto da alfandega, explico ao agente o único motivo universal para a transgressão, aceite em qualquer parte do mundo – deixe-me sair por uns segundos. Ele falou pouco, mas bem: “Ande lá rápido!”
E foi um momento tão rápido quanto incrível!
Tínhamos um encontro marcado mas houve um desencontro de última hora: na mão segurava dois cafés e um chocolate para começar bem a viagem.
Deixa-me abraçar-te outra vez. Ainda bem que vieste!
Lembro-me da porta 11. Tenho que ir. Meia volta, segunda ronda de seguranças, mais correria desalmada, mais um polícia que por acaso é o mesmo “Então, já está?! - diz ele - e chego mesmo a tempo de ser o último – prefiro assim, sem ter que esperar.
A mochila: a única coisa de jeito lá dentro são seis lápis daqueles brancos com a tabuada e uma borracha cor-de-rosa na ponta; três rapas dum jogo que não me lembro das regras; doze imanes com motivos do Porto, design e fabrico made in Portugal e não R.P.C. para oferecer às pessoas que for conhecendo.


Obrigado a todas as pessoas que hoje quebram as regras, fica tudo bem mais interessante!

sábado, 3 de janeiro de 2009

2009, finalmente!

Uma matilha com os rabos no ar persegue uma cadela raquítica que tenta fugir em vão. É quase meia noite e um ajuntamento de pessoas observa os pneus arder na praça principal, ao lado do hospital que de momento está vazio. O enfermeiro escapou-se para a discoteca, não vá o diabo tecê-las! Há um bêbado que tenta saltar os pneus para impressionar alguém (ou a ele próprio). Consegiu. Já vai a ganir ainda no ar, percebeu que ia aterrar antes do tempo. A cadela estafada enganou-se no caminho. Os cães apanham-na. Há um que vai celebrar a passagem do ano com a língua de fora, merecida! Os outros governam-se com cão do lado. Cada um se safa como pode. Na discoteca é tudo mais ou menos igual, está escuro e mal consigo ver com quem vou dançar... Talvez seja melhor assim. Venha mais uma cerveja quente e haja alegria! Por fim chega o cão coxo, cheio de confiança... pode ser que um dia...